A indústria do magistério

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Durante o sermão da sexagésima, Antonio Vieira se pergunta:

Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus? Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um, e já eu me contentara com que frutificasse um por cento. Se com cada cem Sermões se convertera e emendara um homem, já o mundo fora santo. (VIEIRA, Antonio. “Sermão da sexagésima”. in: _____. Sermões Tomo I. org. PÉCORA, Alcir. São Paulo: Hedra, 2014, pp. 32-3.)

O questionamento de Vieira em seu mais famoso sermão vem de uma experiência dificultosa, como conta o pregador, após chegada em Portugal vindo do Maranhão na metade do séc. XVII, experienciado dificuldades tremendas na pregação no Brasil. A dificuldade do padre, porém, não se limitava somente ao Novo Mundo, mas também às terras portuguesas, já que ele mesmo se veria em pouco tempo perseguido pela Igreja e pelo Tribunal do Santo Ofício. Eventualmente, durante a década de 60 daquele século, Vieira seria condenado por heresia e judaísmo (entre outras alegações: a leitura da condenação durou mais de uma hora) logo depois de perder a proteção da corte lusa; o jesuíta teria que, durante boa parte da década de 70, buscar absolvição junto ao papa em Roma para que o julgamento fosse anulado e ele pudesse em fim se tornar inimputável pelo tribunal da Inquisição portuguesa. Vieira ainda seria convocado de volta a Portugal na mesma década pelo rei regente D. Pedro, que temia a influência do padre em Roma (tornado-se um dos pregadores mais afamados da corte da rainha Cristina da Suécia), para depois ser ignorado e se mudar definitivamente para o Brasil, onde viria a morrer.

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Obra de autor desconhecido com a efígie do célebre padre jesuíta, retratado num escritório, com o manuscrito da Clavis Prophetarum, obra deixada inédita e só publicada e traduzida em 2000. Óleo sobre tela, 1680 x 1280 mm. Casa Cadaval, Muge, Portugal.

No ponto auge de seu magnífico sermão de 1655, o orador sacro sugere que, para o pregador, existem cinco circunstâncias: a Pessoa, a Ciência, a Matéria, o Estilo e a Voz; e, durante seu argumento, pergunta-se a respeito da falibilidade de cada uma delas: i) Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus, pela circunstância da pessoa? ii) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? iii) Será pela matéria ou matérias que tomam os pregadores? iv) Será, porventura, a falta de ciência que há em muitos pregadores? e; v) Será finalmente a causa, que tanto há buscamos, a voz com que hoje falam os pregadores?

Para todas as perguntas (retóricas) do orador, há um sim duro, que acusa a própria classe e o próprio fazer, que, no argumento sacro de que usa, chega ao final dizer que a palavra do pregador não é a palavra de Deus, e, por isso, não pode ser poderosa. Chama-me a atenção, além disso, o forte aforismo da penúltima parte do sermão:

Miseráveis de nós, e miseráveis de nossos tempos, pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: Virá o tempo, diz S. Paulo, em que os homens não sofrerão a doutrina sã: Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão, e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas. (id. p. 49)

O problema de Vieira, no seu tempo e lugar em que predominava um tribunal injusto do Santo Ofício, que perseguia duramente qualquer um que fosse contra ele — e não necessariamente contra a doutrina pregada —, que condenava sem julgamento, que destruía a opinião crítica, que confiscava bens pelo capricho da elite eclesiástica, era a sua posição que, em verdade, doutrinava contra o poder oligárquico da Igreja. Ainda que nos devamos lembrar que, acima de tudo, Vieira era um protetor da monarquia absolutista e da soberania desta mesma em valor integral a qualquer outra instituição (em especial no caso de Portugal, que acabava de lutar pela independência contra o reino espanhol); o ataque que o jesuíta faz à instituição que ele mesmo compreende e fomenta é um ponto alto no que podemos encaixar hoje como reflexão pedagógica. Antonio Vieira, no maior conservadorismo absolutista possível do séc. XVII, era um revolucionário, porque lutava contra a dominação de uma perseguição injusta, uma doutrinação cega e pedagogos que diziam ser algo que não eram.

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Seis volumes dos sermões de Antônio Vieira em uma Biblioteca Pública no Brasil.

Notável é que o problema de Vieira retorna neste momento, neste mesmo dia dos professores, que, sempre me é melancólico. Em dias de Escola sem partido, de greves perseguidas, de cerceamento de direitos trabalhistas e a destruição constante do ensino público, lembro-me desta infeliz condição de professor e me pergunto: Se a pedagogia é tão eficaz e tão poderosa, como vemos tão pouco fruto da pedagogia? Dizem que uma boa educação frutifica cento por um, e eu já me contentaria com que frutificasse um por cento. Se com cada cem aulas se convertera e emendara uma pessoa, já o mundo seria esclarecido. Mas não o é. Em verdade, com cada aula que se dá, me parece que cada vez mais se aprofunda a iniquidade, o pensamento destrutivo, o ódio, e, acima de tudo, a ignorância da doutrina sã: os doutores da ignorância. E, frente a esta situação calamitosa, temos que nos perguntar: de quem é a culpa? Dos professores, dos alunos, da(s) instituição(ões)?

Ainda que seja necessário aqui fazer um ataque direto à instituição capitalista e ao ensino industrial em que vivemos, dói-me dizer que talvez haja culpa grande nos professores. É inegável que, em grande parte, a classe do magistério é formada por indivíduos que estudaram, e, em boa parte, muito; e, em menor porção mas ainda significativa, são relativamente esclarecidos. Simultaneamente a esta realidade, porém, é fácil conviver com discursos tenebrosos e absolutamente contrários a este tipo em salas de professores: indivíduos machistas, segregacionistas, violentos, preconceituosos; os horrores são tantos que é difícil escolher um somente, sendo que eles transcendem qualquer tipo de formação aparente: são químicos(as), físicos(as), matemáticos(as), historiadores(as), geógrafos(as), linguistas, sociólogos(as); formados ou não em instituições acadêmicas de alto(íssimo) reconhecimento (inter)nacional. Não é fácil conviver em sala de professores.

Um dos pensamentos recentes sendo produzido em alto nível no país é, sem dúvida, do filósofo hegeliano Vladimir Safatle, professor doutor da Universidade de São Paulo. Há pouco, o estudioso publicou uma belíssima coluna na revista Cult em que ele promove uma discussão que também tem proferido em falas diversas por eventos acadêmicos. Nesta coluna, o professor abre seu argumento com uma asserção ousada: “É claro que a universidade não tem mais lugar no interior do processo de reprodução material da vida.” (SAFATLE, Vladimir. “O que resta da universidade?”. in: Cult, n. 227, Set. 2017, pp. 58-9). Seu pensamento segue na linha de atacar principalmente os meios de produção da modernidade, em que se promove uma educação plana, cujas predominâncias da produção empresarial do capitalismo moderno cerceiam a reflexão crítica, e, por excelência, prescindem de um intelectual que não seja na linha máxima de comando, cuja formação, por sua vez, dispensa qualquer formação acadêmica, já que este é oligarquicamente estabelecido. Ora, isso adentra a fundo nesta nossa argumentação, pois, por extensão, o pensamento acadêmico reflexivo-crítico deixa de ter qualquer tipo de reflexão nos processos de reprodução material da vida, tornando-se, assim, puramente planos a fim da formação de um indivíduo da mesma natureza: plano. Quem oferece esta formação é ninguém menos do que um indivíduo já ele mesmo plano, formado por um discurso que pretende ser messiânico, que doutrina a fim de uma excelência acadêmica que só se dá por meio de uma prova injusta socialmente e, por fim, que destrói qualquer expressão que fuja desta natureza. O professor, então, se torna tristemente um agente do mal, uma engrenagem da destruição do indivíduo, o último agente que puxa a alavanca para ligar a câmara de gás. Tudo isso feito do alto de um palanque, frente a cadeiras enfileiradas à moda militar, sob um silêncio ditatorial e uma programação imposta por um material de caráter vazio reflexivamente.

Mas talvez seja preciso buscar algum caminho de esperança. Um por cento no vale de lágrimas. O preço a se pagar por uma educação reflexiva e profunda em direção ao esclarecimento é alto e, constantemente, indesejado pelo sistema. Em geral, os poucos professores que o fazem são perseguidos, tem de se calar, e, em muito, sofrem com as direções, as coordenações, com o cronograma, com a apostila, com os alunos, com os pais e, duramente, com os colegas. Contudo, nas palavras de Antonio Vieira, quiçá encontrar apenas um possa trazer uma fina esperança, e que dura esperança, que cobrará cem lágrimas posteriormente. Mas esse é o romantismo do professor; uma ilusão, talvez, mas um por cento. Se não for desta maneira, é melhor que, como tanto se deseja na destruição pedagógica em que vivemos, sejam todos substituídos por vídeo-aulas.

Neste duro dia dos professores, em que a liberdade pedagógica se mostra no limite de ser ultimamente destruída em valor último aos materiais apostilados, às fórmulas dadas, aos discursos rasos dos vestibulares, convido aos alunos a refletir sobre o que escutaram de seus professores e nós, professores, o que falamos aos alunos. Para finalizarmos esta reflexão dura, gostaria de voltar ao argumento de Vieira e, se ainda houver paciência do leitor, uma última citação:

Pregavam em Coimbra dois famosos pregadores, ambos bem conhecidos por seus escritos; não os nomeio, porque os hei de desigualar. Altercou-se entre alguns Doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador; e como não há juízo sem inclinação, uns diziam este, outros aquele. Mas um lente, que entre os mais tinha maior autoridade, concluiu desta maneira: “Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo; só direi uma diferença, que sempre experimento: quando ouço um, saio do sermão muito contente do pregador; quando ouço outro, saio muito descontente de mim.” (VIEIRA, Antonio. ibid. p. 51)

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A infeliz condição de professor

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Durante o século V a.C., Atenas vivia o que se conhece hoje como a Era Clássica, de ouro da sociedade helênica antiga, o auge da cultura e do conhecimento. Bruno Snell, um grande acadêmico da universidade de Hamburgo, em sua mais icônica e revolucionária obra, O descobrimento da mente (1948), desenvolveu que, durante aquele período, os gregos descobriram o pensamento racional em meio ao crescimento e popularização do teatro e da poesia, que se espalhou também por todas as regiões da Grécia: os gregos sabiam recitar Homero e Eurípides de memória, bem como frequentavam corriqueiramente teatros e praças políticas.

É nesta época também que professores ambulantes circulavam pela hélade ensinando a arte da fala e do raciocínio a quem estivesse disposto… E tivesse com o que pagar. Chamados de sophistai por Platão posteriormente, estes mestres da sabedoria tinham fama, riqueza e respeito em meio a uma sociedade liderada por uma oligarquia aristocrata e escravista que produzia maravilhas. Estes sofistas não somente eram celebridades gregas, como também eram realmente considerados sábios no sentido etimológico da palavra: sophia em grego significa sabedoria. Nesta sociedade da cultura e da maravilha, os sofistas faturavam suas riquezas ensinando homens a arguir, a falar, já que o mundo grego antigo era baseado em uma cultura profundamente oral, e, deste modo, a representação jurídica, política e poética se dava nesta modulação: falar é saber.

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Demócrito e Protágotas, dois sofistas no pincel de Salvator Rosa (séc. XVII)

Neste ambiente de aristocracia do saber e da política, nasce e cresce Sócrates, o grande filósofo a quem Snell dá o título de revolucionário do pensamento. Apesar de já superado em uma série de sentidos, o livro do acadêmico de Hamburgo ainda tem o seu valor, e, assim, se pode pensar nele com o raciocínio que se tem hoje. Sócrates vem com uma ideia revolucionária: ensinar sem cobrar nada, caminhando pela cidade, indicando sobre as coisas mais essenciais da existência: o amor, a morte, a virtude, o bem, o mal. Durante a vida, Sócrates passou a angariar uma série de seguidores, e sua vida pública se tornou notória; apesar de nunca ter escrito nada, sua vida e doutrinas foram descritas por seus mais assíduos alunos (Xenofonte e Platão, principalmente, mas certamente houve outros cujos escritos não foram transmitidos para a atualidade).

Acredita-se hoje em parte que a palavra filósofo foi cunhada pelo próprio Platão, ao descrever o fazer de seu mestre em oposição aos sofistas, que cobravam pelo trabalho e forneciam métodos para o indivíduo tomar vantagens em sua vida pública. Sócrates aparentemente seguia outra linha: o conhecimento do ser se dava pela descoberta do mais profundo em sua existência e isso se passa pela admissão do fato mais supremo de todos: o desconhecimento. Saber que não se sabe, nas palavras de Platão atribuídas a seu mestre. A doutrina de Sócrates, que tocou profundamente a sociedade ateniense, não demorou a se tornar impopular na aristocracia e nos detentores do alto poder, e, desta maneira, a vida de ensinamentos levará o filósofo ao julgamento, em que, quando questionado sobre sua vida pedagógica, ele responde assombrosamente que não era professor: isto são os sofistas. Após longa defesa (da qual nos conta Platão e Xenofonte), Sócrates seria sentenciado à morte por criar novos deuses e influenciar os mais jovens.

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Sócrates e Alcibíades, pintados por Eckersberg (séc. XVIII)

Em tempos de PEC 241, perseguição de professores, repressão a movimentos grevistas (só para se lembrar dolorosamente do massacre dos professores no Paraná há algum tempo atrás), vive-se no Brasil uma situação muito parecida com aquela de Atenas do séc. V: desenvolver um pensamento crítico e essencial é um crime, digno de pena de morte. Não somente isto, mas como em Atenas, o ensino da mais profunda sabedoria, essencial da existência não é somente indesejada pelo alto poder oligárquico que comanda a política estatal, mas também não é de gosto da maioria de alunos e pais das escolas no Brasil. Sob a desculpa de cumprir o cronograma, aplicar provas, passar de ano, os professores hoje não são muito diferentes dos sofistas platônicos, e passam muito longe da função socrática de caminhar pela cidade e descobrir o conhecimento.

Como professor, já vivenciei estes momentos tenebrosos e a realidade sombria em que está inserida a educação brasileira: corrigir provas a lápis para que houvesse alterações pela diretoria posteriormente, influências de famílias aristocráticas da cidade na escola para que não ocorresse certos movimentos e eventos escolares na região, alunos apontando o dedo (literalmente) para dizer que não há compromisso ao inserir no currículo a leitura de livros ao invés de seguir estritamente o material apostilado… A realidade é tenebrosa, amigos.

Acima de tudo, na minha ignorância absoluta sobre qualquer coisa, que devo admitir, como Sócrates fez, me parece que a verdade que se revela é a de que nesta conjuntura, neste mundo de material apostilado, de carteiras enfileiradas militarmente, de palanque hierárquico, salas fechadas ao modo de selas, provas escritas que determinam o futuro das  crianças, ser filósofo, na acepção platônica, é impossível; ser sofista, porém, é o mandatário. Não busco parabéns pelo dia dos professores, pois como Sócrates, não quero ser professor, não neste mundo, não nesta realidade. Talvez o que um professor queira, não neste dia, mas na realidade em que vive, seja respeito e apreço por seu trabalho, que, como diz Púchkin, é uma condição, uma infeliz condição.

O que os professores de estudos clássicos podem nos ensinar?

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Texto traduzido de The ChronicleWhat Classics Professors Can Teach the Rest of Us

f69d5a45f2e16085f208a1d54ad7b1a3Em muitos verões, David Grant, professor universitário de matemática na Universidade do Colorado em Boulder, passa uma semana ensinando jovens talentosos do ensino fundamental em um programa enriquecedor. Ele não vê nada de estranho nisso — ele mesmo participou de um programa parecido quando estava no ensino médio.

“Se você observar o que permite  que as pessoas tenham sucesso em matemática no nível superior”, diz Grant, “você terá de olhar na fundação que elas receberam do ensino infantil até os 12 anos.” É importante construir essas fundações, certamente, mas Grant participa do programa principalmente porque ele gosta. “É um prazer estar ao redor destes jovens e ajudá-los a melhorar,” ele disse.

Jovens talentosos também fazem cursos de verão em humanidades, mas os professores  universitários geralmente não os ensinam. Na verdade, professores universitários das humanidades raramente se envolvem de qualquer modo com estudantes de ensino médio — ou mesmo com seus professores de ensino básico.

Esta indiferença tem uma longa história. Foi o desdém geral dos professores universitários pelo currículo do ensino infantil até os 12 anos que levou os professores do ensino básico a começar suas próprias associações disciplinares antes da II Guerra Mundial. (Robert B. Townsend conta a história deste cisma — pelo prisma da disciplina de história — no seu excelente livro de 2013, History’s Babel (University of Chicago Press).

Mas há uma excessão notável para esta indiferença involuntária entre o corpo docente das humanidades: os classicistas. Professores universitários classicistas se preocupam com o ensino médio e seus professores. Estes retornam o favor. Eu assisti duas conferências sobre estudos clássicos, e estive surpreso com o coleguismo e a preocupação genuína que os professores do ensino básico e universitários mostram para com uns aos outros.IMG_3255

Talvez eu não deveria estar surpreso. Muitos professores de ensino médio de estudos clássicos têm doutorado, e as pessoas com quem eles se misturam nas conferências incluem seus próprios professores e orientadores. Mas há muito mais em sua preocupação mútua do que uma genealogia compartilhada. Classicistas em nível de educação básica e universitária tem em comum a missão de promover não somente o estudo dos textos clássicos mas também das línguas clássicas. Eu troquei e-mail com muitos professores universitários e do ensino básico da área para compor suas ideias nesta base comum.

“A maioria dos professores universitários classicistas se consideram professores de línguas,” disse Joseph Farrell. Um professor classicista universitário na Universidade da Pennsylvania, Farrell não despreza o ensino de línguas. “Nos últimos dois anos, eu pessoalmente ensino latim para todos os níveis de graduação e pós-graduação, assim como um nível superior de grego,” ele disse. “A maioria de nós que ensinamos em algum dos níveis acredita que nós estamos ensinando muito da mesma coisa. Eu acho que isso é evidente para os estudantes também.”

Esta boa-vontade do corpo docente de ensinar cursos mais básicos contrasta profundamente com o que acontece em outras disciplinas nas humanidades. Muitos professores universitários de inglês gastam muitas energias para escapar de ensinar redação aos calouros , por exemplo, e muitos historiadores tentam muito evitar o curso de introdução em história dos EUA ou do mundo.

Para os classicistas, o motivo em comum se estende à organização das disciplinas, cujas conferências contam com muitos painéis em educação. O diálogo final entre os níveis escolares cria uma “sinergia natural,” disse Henry V. Bender. Bender ensinou estudos clássicos em ambos os níveis básico e superior em sua longa carreira, então ele testemunhou essa unidade dos dois lados. É, ele diz, “um elemento precioso para o ensino e aprendizagem colaborativos.”

A colaboração é pessoalmente inevitável por causa de sua escala. Onde é oferecido, o latim tipicamente toma somente um pequeno segmento do ensino de línguas no ensino médio. (A maioria das escolas de ensino médio não ensina grego clássico.) A matrícula em latim no ensino médio caiu muito em escala nacional nos anos 70 por muitas razões, escreveu Judith Hallett, uma professora universitária de estudos clássicos na Universidade de Maryland, por e-mail. As causas incluem a mudança do latim na liturgia para o vernáculo na Igreja Católica, o relaxamento em geral nos requisitos de aprovação nas universidades, e a preocupação crescente com a “relevância” curricular. Algumas universidades introduziram um curso em “Civilizações Antigas”, que é basicamente Estudos Clássicos em as línguas.

“O latim como um todo se recuperou conforme os anos passaram,” disse Patricia Lister, uma professora de ensino básico na Escola Thomas Jefferson de Ciência e Tecnologia de Ensino Médio  em Virginia. Mas ele está “sempre em perigo da guilhotina.”

Em momento de declínio de porcentagem de inscrições em cursos de humanidades, classicistas sabem que eles não podem negligenciar suas matrículas. Atenção para as instruções no ensino médio forma parte da proteção contra o declínio. “É muito importante para nós manter estas conexões,” disse Lister, “então nós podemos contar um com os outros mais para frente.”

O ponto final , diz Hallett, “é quenós não podemos sobreviver sem os professores de latim do ensino básico que nos mandam seus estudantes e contratam os nossos.” E os classicistas estão, na verdade, sobrevivendo. Uma análise estatística recente de trabalhos em ensino pela Academia Americana de Artes e Ciências mostra um declínio em todas as disciplinas de humanidades desde a recessão econômica de 2008, incluindo nos estudos clássicos. Contudo, os classicistas sofreram menos nesta descida. A área manteve seu mercado pequeno, enquanto o número de vagas de trabalho para outras áreas nas humanidades caiu muito.

A preocupação compartilhada dos classicistas pelo destino da disciplina promove conexões mutuamente afetuosas e respeitosas. Professores de ensino médio mantêm relações próximas com seus professores universitários que, Hallett notou, “outros poucos professores de ensino básico podem dizer que têm.” Da mesma maneira, Farrell, o professor de Pennsylvania, se lembrou de como, quando ele estava aplicando para entrar na universidade, seu professor de latim do ensino médio o disse que “haveria dois professores universitários lá que ficariam realmente feliz de me ver.” Ele acabou frequentando o Bowdoin College, onde estudou com aqueles professores. E quando ele foi para a pós-graduação, seu eventual orientador o deu boas-vindas pela forte relação que ela tinha com um de seus professores universitários de Bowdoin.

Lister chama isso de o efeito do “gotejamento.” Os acadêmicos estão acostumados a construírem árvores genealógicas ao redor de outros famosos. Mas os classicistas não se limitam a traçar suas linhas de descendência — eles também traçam suas linhas de ascendência. É “uma fonte especial de gratificação,” diz Hallett, para “professores universitários por ‘herdar’ os estudantes de seus estudantes.”

Há um ponto maior em questão, e é uma que todos os humanistas deveriam se atentar: “Nós abraçamos a ideia que todos os acadêmicos são professores, e que todos os professores são acadêmicos,” disse Sherwin Little, secretária administrativa da American Classical League. Todos os professores são familiares com a noção de que ensinar e pesquisar deveriam alimentar um ao outro, mas a ideia é às vezes usada como uma peneira para o sol pelos acadêmicos — com excessão nos estudos clássicos, em que há uma infusão na própria área de maneira exemplar.

Mary Pendergraft, uma professora universitária de línguas clássicas em Wake Forest, se preocupa que a colaboração entre o ensino médio e a universidade na área está em perigo pelo aumento nos requisitos para o direito de estabilidade no emprego para os docentes nas universidades. “Se as atividades de extensão ou as pedagógicas ‘não contam’ para o direito de estabilidades,” ele disse, “é um risco dedicar tempo precioso a elas.”

Mas não seria mais arriscado não fazê-lo?

Se não cultivarmos jovens humanistas, então nossas salas de aula do futuro serão vazias. Nós pouco podemos argumentar a favor da contratação de novos professores universitários para os aposentados se nós não temos estudantes no nossos cursos. O ensino médio é a única possibilidade de fornecer descendentes para mantes as humanidades. Nós o ignoramos a favor do perigo.IMG_3340.JPG

Leonard Cassuto, é professor universitário de inglês na Universidade de Fordham e escreve regularmente sobre educação superior no The Chronicle (http://chronicle.com).

O fidalgo da Torre, Portugal x França e o Sebastianismo

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E o Fidalgo da Torre, imóvel no eirado da Torre, entre o céu todo estrelado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de vida superior — até que enlevado, e como se a energia da longa raça, que pela Torre passara, refluísse ao seu coração, imaginou a sua própria encaminhada enfim para uma ação vasta e fecunda, em que soberbamente gozasse o gozo do verdadeiro viver, e em torno de si criasse vida, e acrescentasse um lustre novo ao velho lustre do seu nome, e riquezas puras o dourassem, e a sua terra inteira o bem-louvasse, porque ele inteiro e num esforço pleno bem servira a sua terra…

O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:

—  O Sr. Doutor ainda se demora?

—  Não. A festa acabou, Bento. (Queirós, E. A ilustre casa de Ramires. XI)

Torre da Lagariça - A Illustre Casa de Ramires
Torre da Langariça

Assim é a finalização da história do fidalgo Gonçalo Mendes Ramires, protagonista do romance A ilustre casa de Ramires de Eça de Queirós. A narrativa segue a produção do protagonista de um romance histórico para se promover por meio da história de sua icônica família, mais antiga que a própria nação. Seria por meio de seu resgate que a grandiosidade viria de novo para Gonçalo e, deste modo, ele conseguiria se promover o suficiente para se eleger deputado. Na passagem que se lê acima, Gonçalo acaba de ser eleito e há uma festa nos arredores e ele a vê de cima de sua torre negra famosa, antiga como sua família, e percebe finalmente que não precisava bajular ninguém, nem mesmo se rebaixar para ser apreciado, pois a glória de sua família, como glória, não precisava ser revivida pois sempre estivera lá. O romance de Queirós já foi lido por diversos estudiosos de diversas maneiras, mas em minha leitura ficou a impressão de uma das maiores metáforas do sebastianismo já produzidas em prosa na língua portuguesa.

Sebastianismo é o nome que se dá para um movimento profético messiânico português originário dos finais do século XVI após o desaparecimento d’El-rey D. Sebastião da casa de Avis em Alcácer-Quibir no ano de 1578. Após o acontecimento, muitos acreditavam que El-rey não morrera na batalha, mas estava simplesmente “encoberto”, esperando o momento certo para voltar ao trono e reclamar o reinado das mãos de seu tio Filipe de Espanha dos Habsburgo. Durante anos a crença persistiu, tomando contornos políticos, até o momento em que começa também a adquirir aspectos de crença messiânica, partindo de oráculos e profecias da volta do rei pela boca de um sapateiro analfabeto e até mesmo de Antônio Vieira, um dos maiores prosadores em língua portuguesa.

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Anônimo (~1600). D. Sebastião de Portugal. Óleo Sobre Tela.

A crença progrediu longamente durante os séculos em Portugal e ao redor de si angariou contornos grandiosos. Agregou-se ao Sebastianismo a literatura camoniana, em especial Os Lusíadas, o mais famoso poema épico português do final do século XVI; e assim a própria figura de Camões se tornou um anexo a El-rey D. Sebastião. A literatura portuguesa comprou o messianismo e ganhou força de fato no século XIX com os grandes escritores românticos, marcadamente Garrett e Herculano, mas todo grande escritor português hora ou outra passou pelo Sebastianismo, já que talvez El-rey Sebastião seja o primeiro herói épico de Portugal, conquistando a glória imperecível.

 

É fácil traçar as características épicas de D. Sebastião, especialmente se se ler com cuidado o canto IX da Ilíada. No episódio, Aquiles recebe a famosa embaixada de heróis, que tentava fazer com que o melhor dos gregos volte para a batalha, aceitando os presentes e as desculpas de Agamêmnon por suas ofensas. Odisseu, Ájax e Fênix tentam convencê-lo pelos discursos persuasivos, dos quais o mais famoso talvez seja o do último; contudo a tentativa é falha, pois Aquiles se mostra irredutível a voltar para a guerra, sentindo-se terrivelmente ultrajado. Em resposta, o mais famoso mirmidão responde aos amigos (seus phíloi em grego) que voltará para casa e revela-lhes a profecia que sua mãe lhe fizera antes da guerra:

Então me disse mãe minha, divina Tétis pés-de-prata

que destinos dúplices eu carregava ao final da morte.

Se eu, permanecendo aqui na cidade de Troia, guerrear,

destrói-se meu retorno, porém a glória imperecível fica.

Mas se vou para casa querida, à minha terra pátria,

destrói-se minha glória soberba, mas a vida, longa me

será, nada rápido o final da morte me atingiria. (Il. 9.410-6)

O episódio é um dos mais memoráveis da literatura ocidental, com uma construção poética inesquecível e inacreditável, imortalizando uma das grandes essências do herói épico: a glória. A palavra em grego é kleís, que deriva do verbo klúō que significa escutar, isso é, para o herói grego o que se quer (como Aquiles conseguiu por ficar em Troia e morrer) é ser escutado para sempre, ou seja, ser lembrado para sempre: imperecível.

Como Aquiles, Sebastião morreu em guerra grandiosa, talvez seja Sebastião o Aquiles português que tanto encantou os escritores oitocentistas. De todas as maneiras, fica para os portugueses o sentimento encoberto, o nevoeiro de F. Pessoa, mas sobretudo uma esperança na mágoa, como tentou escrever Antônio Nobre em seu poema fragmentário O desejado:

Virá, um dia, carregado de oiros,

Marfins e pratas que do céu herdou,

O Rei-menino que se foi aos moiros,

Que foi aos moiros e ainda não voltou.

Tem olhos verdes e cabelos loiros,

Ah não se enganem, (ainda não chegou)

Virá El-Rey-Menino do Estrangeiro,

Numa certa manhã de nevoeiro…

Tem loiros os cabelo, e é criança,

Tem olhos verdes de luar noturno:

Olhos verdes, são olhos de esperança!

Olhos verdes, São Luas de Saturno!

Veio da África mais a sua lança

Vai p’lo mundo, rezando taciturno.

Tão pobrezinho, olhai! estende a mão:

“Quem dá esmola a D. Sebastião?”

Esperai, esperai, ó Portugal!

Que ele há de vir, um dia! Esperai.

Para os mortos os séculos são meses,

Ou menos que isso, nem um dia, um ai.

Tende paciência! finarão reveses;

E até lá, Portugueses! Trabalhai.

Que El-Rey-Menino não tarda a surgir,

Que ele há de vir, há de vir, há de vir! (Nobre, A. O desejado)

O messianismo sebastianista não tem igual, e percorreu a literatura portuguesa com tal força épica. Os portugueses esperam pela volta de Sebastião, em outras palavras, pela volta da grandiosidade, pela volta de Camões, o novo Homero que eternizou o Aquiles português, como colocou Garrett:

Correra a fama do louvor, do preço

Que dera o rei ao sublimado canto.

Pronto se oferece quem germanas artes

Em dar-lhe vida e propagá-lo empregue.

Doutos e indoutos com geral aplauso

Viram do novo Homero o canto insigne

Que à pátria glória monumento augusto

Sublime erguia. Soa o brado ingente 

Já pela Europa; e o nome lusitano 

Ao nome de Camões eterno se une. (Garrett, A. Camões 9.18.1-10)

E assim fica o Sebastianismo no espírito de Portugal até mesmo nos tempos modernos há um sentimento de esperança na mágoa e glória imperecível mais antiga.

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C. Ronaldo em 2004

Em 2004, a Eurocopa, campeonato futebolístico europeu de seleções, aconteceu em terras portuguesas entre 12 de Junho e 4 de Julho. A seleção grega voltava ao campeonato depois de 24 anos de ausência, chegando à final eliminando a poderosa seleção francesa do lendário Zinedine Zidane; por outro lado, os anfitriões portugueses passaram de uma derrota no primeiro jogo para o jogo final eliminando nada menos que a seleção Inglesa de Michael Owen (nos pênaltis) e Holanda de Overmars e Seedorf.

O grande herói da seleção lusa de então era o camisa 7 Luís Figo, acompanhado de um maduro companheiro brasileiro naturalizado Deco, então jogando no Barcelona. Cristiano Ronaldo, ainda vestindo a camisa 17, era o jovem do time, o rapaz originário da Ilha da Madeira que passara pelo Sporting Lisboa e chegara ao Manchester United com fama de promessa para o futuro. No jogo final, os gregos (que jogavam um futebol defensivo) derrotaram o time português com um gol de Angelos Charisteas de cabeça; a jogada que marcou, contudo, foi um drible de Ronaldo para o campo defensivo, levando seu técnico Luis Felipe Scolari a um ataque de fúria. Perdeu-se a guerra.

Mas esta foi somente a primeira nau, de Henrique o Infante a navegar nas águas do nevoeiro, pois o jovem nauta que outrora era apenas marujo tomou o leme para si, como El-Rei D. João II da casa de Avis. Cristiano Ronaldo, no último dia 10 de Julho, domingo de final de Eurocopa, machucado aos 25 minutos de jogo saiu para o convés da nau a gritar com o Adamastor francês, o Monstrengo de F. Pessoa:

O monstrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse, “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tetos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo,

“El-Rei D. João Segundo!”

(…)

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as repreendeu,

E disse no fim de temer três vezes,

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o monstrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!” (Pessoa, F. Mensagem. Monstrengo)

A seleção portuguesa e Ronaldo foram um Povo, mais do que eles mesmos, uma crença. Não ouso comparar o herói português, que conquistou uma glória, não sabemos se imperecível pois o futuro é nevoeiro, mas certamente há uma pequena flama sebastianista nesta conquista lusa do último domingo. E a conquista foi, como não pode ser diferente para os lusos, por meio da dor. Valeu a pena? Afirmemos que a alma dos portugueses não foi pequena, passaram além do Bojador e conquistaram o céu. Que fique o Sebastianismo e celebremos a vitória lusa, liderada por seu herói-capitão Cristiano Ronaldo e o golpe final executado pelo africano Éder, o símbolo do que é Portugal e a união que deve significar este momento turbulento de ódio no mundo; mas isso é uma discussão para outro artigo.

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C. Ronaldo e Éder

Sobre as dificuldades de começar um grande romance

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Eu deveria fazer muitas outras coisas. Coisas. Desde muito cedo, eu deveria era fazer uma multidão de coisas. E quem verdadeiramente não deve? A fazência é aquilo que se deve fazer, e me persegue sempre-sempre. Pois olhe que o indivíduo acorda já na fazência, e parte para realizá-la. Pai-meu sempre foi assim. Mãe também, pois sou de geração que mãe trabalha… Aliás, que mulher nunca trabalhou? Mulher também sempre teve fazência, calada do homem, ignorada de mim, até o momento que ponho assim o conto na língua. O fazedouro só era diferente. Diferente.

Pai-meu, pois falava, partia na fazência logo no sol-nascente. Mãe também. Na roça, você acorda cedo por causa do calor; na cidade, aprendi que você acorda é mesmo pela fazência. Hoje é assim, o indivíduo toma uma fazência de manhã cedo até de-tardezinha, volta para casa, toma uma cerveja, reclama do jogo, assiste um pouco de televisão. Filho-meu, ainda, como diz tio-meu, cutuca o celular, e eu lhe pergunto assim: “-Filho-meu, se lhe faltasse teus dedos, cutucaria com os cotovelos teu celular, não é?”, mas é claro que é óbvio. “-Só vejo rapidinho o que meus amigos fazem, pai.” Mas não é. Transformou-se igual Quasímodo, nada de Hércules. Mas também de nada romântico, o celular parece que lhe arranca vértebras, e assim ele fica do seu jeito, deitolhos vidrados. É mais tenebroso pela noite, com luzes apagadas, quando lhe olho e a luz brancalva macilenta aerófana reflete nos deitolhos seus. Filho meu é assim. Fala pouco, mas segura o celular como se segurasse a vida. E tem também fazência, ele. Minha mulher também. Tinha. Morreu.

De doença, quando ela morreu, eu estava também. Fazência de doente é diferente, mas também há. Dureza do homem é sempre ter que fazer alguma coisa. Antigamente tinha? Tinha, pois pra vô-meu também lhe havia fazência. Minha vó não.

Mas quem não deve de ter? Todo mundo tem, até quem não precisa? Aliás, quem precisa? Ah, precisa sim, falei já pra filho-meu assim: “-Filho-meu, precisa estudar pra ter o-que-fazer [fazência].” Ele entrou em escola boa perto de casa, estudou bastante e faz faculdade, orgulha para minha mulher, coitada, morta.

Eu, ainda, estou em fazência, ou deveria de estar, mas não. Acabei-me aqui mesmo. Aqui é meu escritório-biblioteca que montei na vida. Foi-se montando, surgindo de pouco-em-pouco, da minha fazência… Ou foi? A lembrança é que me confunde agora, me rouba os momentos ou desaparece mesmo pr’o meio daquilo que não se rememora nunca mais. Ainda quando passou pela doença recente, só se lembra da doença. Morreu minha mulher de um ataque rápido, ataque de erro dos outros. Erro meu? Não sei. Morreu assim:

Eu disse para ela: “-Minha mulher, veja que o exame do médico é seguro e se você fizer é melhor pr’a sua cabeça.” Ela aceitou, fizemos o exame, filho-meu comigo, mas morreu ela; ele segurando duramente o celular como se fosse a vida, dele não da minha mulher, mãe dele. Morreu e eu chorei, filho-meu também; angústia é uma coisa dura da alma, não sai fácil nem com conversa de psicólogo, fica dentro da gente desapercebida, esquecida, até que uma hora ela lhe pega. Foi assim que eu falei para filho-meu quando lhe vi chorando escondido uns meses depois. Medo é esse negócio que acompanha a angústia, e aí vem que o indivíduo tem é que fazer alguma coisa. Será que é isso?

Me pagaram um dinheiro, mas não passou minha angústia, não fiquei nem mesmo mais feliz, não queria aquilo. Nem filho-meu. Ele nem sabe o que é dinheiro, acho. Eles também não, ou sabem. É assim que se repaga a angústia: dinheiro. Tudo, na verdade, acaba sendo repagado com isso, um valor, em dinheiro, em número, em quantidade, em tempo. Mas não tem dinheiro que pague nada. “Pai, mãe queria antes de morrer ler um livro seu, pegou e levou lá para cima. E junto me deu esse, falou para eu ler.” Falou filho-meu mais de uma vez e me mostrava um tomo, um livrão de sei-lá-quantas páginas. Nunca tinha lido, mas comprei uma vez porque era um daqueles que falavam pr’a gente que era para ler, eu tenho vários desses. Coitado, filho-meu não conseguia era passar da primeira página porque pegava logo no celular. “-Só vejo rapidinho o que meus amigos fazem, pai.”

E quando começar a fazência dele de verdade? Vai é para conseguir um dinheiro, uma quantidade, um tempo, um número. Para comprar uma biblioteca, um celular novo, um carro novo e uma casa dele. E depois vai construir uma churrasqueira e uma piscina, e vai trazer os amigos para tomar uma pinga cara, uma cerveja importada e dar risada dizendo que só a fazência dele que lhe proporcionou isso daí: um dinheiro. O indivíduo faz assim, e ri. Mas quando aparece o outro que não fez, diz que é infeliz e angustiado, que precisa de fazência para ter dinheiro, para comprar uma biblioteca, um celular, um carro novo e uma casa; para construir uma churrasqueira, uma piscina e tomar cerveja importada com pinga cara. Na roça também é assim, não vou romanticar, só que a fazência é outra.

Já chorei e ainda estou angustiado, minha mulher morreu e ela não acabou de ler o livro dela. Levantei cedo pr’a minha fazência, mas sentei aqui nesse escritório-biblioteca e eu fico olhando embalde para a parede, virei a cadeira já umas dez vezes para ficar olhando a estante e ficar lendo os títulos das obras. Peguei já um, outro, li três páginas de algum que queria algum tempo mas desisti. E pensei assim, que vou começar é uns contos porque é curto e assim dá tempo com a fazência, se eu começar um grande não dá. Levantei, coei um café na cozinha lá de baixo, comi um pão com requeijão, voltei e fiquei angustiado de novo.

Fazência.

Quando eu entregar isso acho que depois eu tenho tempo.

Preciso.

Chorei mais um pouquinho e senti minha mão tremelicar. É um fantasma de quando minha mulher morreu. Tive umas crises e fui no psicólogo. Não saiu crise nem angústia, mas conheci o psicólogo para um papo de-tardezinha. Filho-meu chegou e me mostrou um negócio engraçado no celular, deu uma risada e já fui fazer a janta pra nós dois.

Fazência.

Mas já é de-noitinha. Não dá mais a fazência. E assim eu fiquei é mais angustiado que antes, porque não deu tempo, e fiquei embalde olhando para a parede. Para os títulos. Sentei na poltrona do lado no escritório e fiquei ainda olhando para a estante. Nem notei, mas o meu celular estava na minha mão, olhando um negócio engraçado, dando uma risada daquelas sem graças. Falam que minha risada é engraçada.

Levantei e dei comida para o cachorro. Voltei para o escritório e olhei pr’aquele livro que minha mulher queria ler, grande, sei-lá-quantas páginas. Peguei-lhe e trouxe para a poltrona. Abri e li um prefácio bonito, umas etimologias bonitas, fechei e fiquei angustiado, coloquei ele ali do lado, olhando para mim, sobrolho eriçado. Filho-meu passou com o celular na mão e eu lhe chamei, faz pouco tempo que foi isso. Ele veio meio choroso e contou para mim a história do livro da mãe que ele tinha lido: uma guerra, uma paixão, uma dureza de coração e uma morte. Me abraçou um pouquinho segurando o celular na mão quentinha. Quando esse menino leu?

Eu preciso ler.

O mundo e a travessia de Guimarães Rosa

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O mais difícil depois de se acabar de ler uma obra prima é a pergunta que nos resta depois: “e agora?” E, na verdade, o mais impressionante é que isso acontece várias vezes para o bom leitor, há uma infinidade de obras primas insuperáveis. Em meu caso, quando acabei de ler Grande Sertão: Veredas, me lembro de ficar pouco depois olhando para a minha pequena e humilde biblioteca pensando exatamente no que viria depois, parecia que seria impossível achar outra obra para se ler que me impactasse tanto.

O romance de Guimarães Rosa é uma daquelas obras de arte que não é superável pelo seu poder como arte. O autor notoriamente era um leitor ferrenho e amante da literatura clássica, tendo em sua biblioteca versões anotadas da Ilíada e Odisseia, obra das quais tirou muito para seu romance máximo.

Os jagunços dos Gerais na adaptação para quadrinhos de Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli Filho
Os jagunços dos Gerais na adaptação para quadrinhos de Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli Filho.

Para quem nunca leu o escritor mineiro, a primeira grande barreira certamente é a linguagem e o estilo narrativo; mas aqui faço uma pequena digressão: de qual grande autor o estilo é direto na primeira leitura? De nenhum. Mesmo para o leitor mais acostumado, a introdução a uma nova literatura é difícil e vagarosa, até porque a prática de leitura é lenta; quem lê rápido não o faz inteiramente. Assim, se você quer ler Grande Sertão: Veredas, a primeira ordem é paciência, e, de fato, sugiro que leia outra obra do autor antes, como, por exemplo, o livro de contos Sagarana, ou Primeiras Estórias; ambos servem como ótimas introduções ao estilo único de Rosa.

Em latim, stilo significa caneta, ou pelo menos o que era uma caneta na época: um ferro pontudo com o qual se escrevia. No filósofo Cícero e nos poetas Terêncio e Horácio a palavra  já significa modo de escrever, ou seja, algo único, que não se encontra em nenhum lugar, certamente o que há com Rosa.

Superada a dificuldade, o leitor encontrará na narrativa de Riobaldo uma das mais magníficas aquisições com o stilo: o protagonista, um homem já velho, dono de terras, bem casado com sua amada Otacília, nos conta a maravilhosa história de sua vida no sertão dos gerais, em Minas Gerais, na Bahia e em Goiás. O primeiro título da obra – Veredas mortas: o diabo na rua no meio do redemoinho – e toda a primeira parte da narrativa já demonstra seu fio condutor central, a relação de Riobaldo com o diabo e o problema de sua existência para o protagonista. No melhor modelo homérico, o primeiro parágrafo da obra já indica quase todos os problemas do ex-jagunço, terminando com o profético: “O sertão está em todo lugar.”

Uma vereda e ao redor os buritis, árvore evocada na narrativa todo como uma grande metáfora.
Uma vereda e ao redor os buritis, árvore evocada na narrativa todo como uma grande metáfora.

Acompanhamos Riobaldo em longas digressões sobre a natureza humana, o sertão, o diabo, enquanto ele mesmo tenta resolver as dúvidas de sua própria vida. As dificuldades do Tatarana (seu primeiro apelido como jagunço) são acompanhadas da figura misteriosa de um belo rapaz de olhos verdes chamado Reinaldo – nome somente usado com os outros – para Riobaldo, seu amigo desde a juventude, ele é Diadorim. A relação homoafetiva dos dois é um tema que pulula na narrativa toda, desde o momento inicial, passando pelo flashback até a a infância do protagonista quando Diadorim lhe ensina a ter coragem atravessando o rio S. Francisco e outros encontros fantásticos: a relação de Riobaldo e Diadorim somente pode ser separada pela morte. Há um segredo com Diadorim, revelado para nós apenas nos últimos suspiros da história do Tatarana, na batalha final contra o traidor Hermógenes, antagonista da trama.

De pequenas passagens que poderia citar apenas para dar o gosto da obra, é difícil escolher, mas passamos em nossa leitura desde reflexões lindas de Riobaldo sobre a vida como:

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza. (p. 402)

As suas reflexões e digressões são acompanhadas pelo forte poder narrativo de Rosa, como a descrição da morte de um de seus inimigos ao final de longa história:

Lá acolá, o homem abriu devagar os cacos de porta. Saíu, deu uns passos. como vinha alto, chapéu na cabeça, até meio sorridente. Não se esbugalhava. Assim estivesse pensando que ia ter julgamento? Achei que. E ele não estava ferido. Caminhou mais. Sendo que – e aí, foi minha ideia? – ah, não; mas vi que Diadorim, de ódio, ia pular nele, puxar faca. Só fiz fim: num tirte-guarte: atirei, só um tiro. O Ricardão arriou os braços, deu o meio do corpo, em bala varado. Como no cair, jogou uma sua perna para lá e para lá. Como caíu, se deitou. Se deitou, conforme quase não estivesse sabendo que morria; mas nós estávamos vendo que ele já morto já estava. (p. 689)

Quando estava na faculdade, me lembro de uma célebre aula do ótimo professor Paulo Franchetti, que lia conosco poesias – não me lembro qual exatamente -, lá, ele nos disse que quem nunca se emocionou com a literatura não é capaz de estudá-la. Pois bem, não demora muito para se emocionar com Grande Sertão: Veredas; pelo menos eu não demorei. A luta de Riobaldo foi a minha também, e certamente é de muitos – se não todos -: Riobaldo Tatarana, o Urutú-Branco, luta contra si mesmo, onde o mal está, somente dentro do homem, nas palavras do jagunço: “O diabo não há! (…) Existe o homem humano. Travessia.”

Diadorim na adaptação para quadrinhos de Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli Filho
Diadorim na adaptação para quadrinhos de Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli Filho

A hospitalidade na espada

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Durante a jornada de Odisseu vislumbramos uma das características mais particulares da cultura grega antiga, que, até certo ponto, se propagou para algumas outras até o século passado. No canto VI da Odisseia, o herói se encontra naufragado, sozinho, sem roupas depois de anos preso na gruta da ninfa Calipso. Ao relento e frente a diversos perigos, ele se esconde debaixo de uma oliveira para se proteger; e é de lá que a deusa Atena envia uma salvação para o grego, manipulando a princesa feácia Nausícaa em direção ao herói. Levado até o palácio, Odisseu é apresentado ao magnífico palácio de Alcínoo no canto VII, e, cansado, se senta perto da lareira. O ancião do palácio dos feácios logo se dirige ao rei:

“Alcínoo, isto não é o melhor nem conveniente,
um estranho sentar-se no chão, nas cinzas da lareira;
(…)
Vamos, o estranho em poltrona pinos-de-prata
faze sentar após erguê-lo, e aos arautos ordena
que vinho misturem para a Zeus prazer-no-raio
libarmos, ele que a respeitáveis suplicantes acompanha;
e que a governanta dê algo ao estranho para jantar.” (Od. 7.159-66; trad. Christian Werner)

Francesco Hayez, 1814-1815. Naples, Museo di Capodimonte
Odisseu no palácio de Alcínoo – Francesco Hayez, 1814-1815. Nápoles, Museo di Capodimonte

Na cultura náutica de grandes viagens gregas na literatura, há um papel crucial para o anfitrião. A relação de hospedagem é algo que se repete na Odisseia, e o grande símbolo do bom acolhedor de estrangeiros é Alcínoo, o rei da Feácia. Ele dá um grande jantar a Odisseu sem nem mesmo lhe perguntar o nome e, depois da fantástica história do herói, dá-lhe um barco repleto de presentes: roupas, vinho, vasos e caldeirões de bronze:

“roupas para o hóspede já no baú bem-polido
estão, ouro muito artificioso e todos os outros
dons que os comandantes feácios cá trouxeram;
vamos, ofereçamo-lhe grande trípode e caldeirão” (Od. 13.10-13; trad. Christian Werner)

Era comum os estrangeiros serem presenteados por quem lhes acolhe: há diversos exemplos na própria Odisseia. Mas é a história de outro estrangeiro para que chamo a atenção agora.

No canto VII da Ilíada, durante a guerra de Troia vemos duas figuras batalhando fervorosamente. Lutam Ájax, o Telamônio, o segundo melhor grego, e Héctor, o maior herói troiano. A batalha dos dois é duríssima e percorre todo o dia, mas, caindo a noite, decide-se que é melhor os dois se separarem e se dar por finalizada a batalha. Feito isso, Héctor troca com o o grego presentes, de um troiano para um estrangeiro. Héctor lhe dá uma espada e Ájax, um cinturão em troca:

“(…) Troquemos presentes gloriosos entre nós,
para que alguém, grego ou troiano, depois diga:
‘Combateram-se numa batalha devoradora de corações
mas depois se separaram unidos na amizade.” (Il. 7.299-302)

Diferentemente de Odisseu com Alcínoo, Ájax não chegou a Troia pacificamente, mas nem isto impede que Héctor dê presentes ao grego. Na verdade, a relação que se estabelece entre os dois vai um passo ainda mais profundo do que simplesmente aquela entre hóspede e anfitrião. Héctor menciona que há amizade entre os dois, um termo fortíssimo em grego, que estabelece inclusive relações amorosas.Ájax carregando o corpo de Aquiles - 580 a.C. - Florença

Mas a mesma sorte que Ájax tirou na hora de batalhar contra Héctor não o acompanhou depois. De maneira um tanto tenebrosa, quem escutava a história de Ájax no canto VII da Ilíada certamente se lembraria do destino cruel que aguardaria o herói, narrado para nós por Sófocles. Depois da morte de Aquiles, Ájax seria traído por Odisseu, seu companheiro grego em Troia, e por causa de sua vergonha profunda, se mataria se jogando em cima da espada, o presente do amigo Héctor:

“O matador [a espada] está endireitado assim o mais cortante
possível (…),
presente do varão Héctor, dos estrangeiros para mim
o mais odioso, o mais detestável de ver.” (Sóf. Áj. 815-8)

Imagem de ânfora: o suicídio de Ájax - 530 a.C.
Imagem de ânfora: o suicídio de Ájax – 530 a.C.

No fim vemos que quem o assassina ainda é metonimicamente o troiano, já morto por Aquiles neste ponto da narrativa. Personificado na espada, o estrangeiro perfura Ájax. A história do herói Telamônio da Salamina é repleta de reviravoltas, um grego que não aceitou a transformação de amigos em inimigos e vice-versa, e assim, de maneira bem simbólica, se mata com o presente de seu amigo detestável ou seu inimigo amável.

É assim que Ájax logo se torna uma das figuras mais marcantes da mitologia grega e, talvez, um dos maiores paradoxos da cultura da hospitalidade no mar Egeu.